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INVESTIGACIÓN UNIVERSITARIA MULTIDISCIPLINARIA - AÑO 10, No10, DICIEMBRE 2011
Facultad de Ciencias Humanas
A Atlântida, criada em 1941 por Moacyr Fenelon e parceiros, consolidou a relação entre música, rádio e cinema no Brasil, seguindo a linha da maior parte das produções da Cinédia – a comédia musical popularesca – que deu origem à chanchada, gênero de grande acei- tação que perdurou até a década de 1950 – quando foi absorvido pela televisão – e foi retomado em 1960, em São Paulo, por Amacio Mazzaropi.
Nos anos de 1950, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada por Franco Zampari e Assis Chateaubriant, em São Paulo, tentou implantar no país um sistema efetivamente industrial de pro- dução cinematográfica, por meio da realização de “dramas universais com produções luxuosas e caras, de forte apelo comercial e conservador, no melhor estilo hollywoodiano e com forte investimento norte- -americano” (Carvalho, 2008, idem) – projetos para os quais a companhia contava com uma equipe técnica estrangeira. Compositores como Radamés Gnattali, Francisco Mignone, Gabriel Migliori e Guerra Peixe eram contratados para criar as trilhas musicais dos filmes da Vera Cruz, que seguia o método tradicional hollywoodiano do uso dramático dos temas.
Em oposição às produções de estúdio influenciadas por Hollywood surge o Cinema Novo, caracterizado por produções inspiradas nas vanguardas europeias dos anos de 1960 e realizadas por críticos e cineastas independentes, como Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha. Sobre a música utilizada nesses filmes, Carvalho (2008) frisa a presença constante do samba de Zé Kéti e de canções de protesto.
Segundo Máximo (2003), nos filmes brasileiros recen- tes não enquadrados no gênero musical, as canções parecem oscilar entre um recurso gratuito, sem função em trilha incidental, e um elemento funcional: “[a maioria dos nossos cineastas] não sabem o que querem musicalmente; acham que qualquer coisa serve desde que consigam colocar música num filme, seja esta ouvi- da ou não” (Máximo, 2003, p. 142). O pesquisador cita, dentre os compositores eruditos que escreveram ou escrevem música para o cinema nacional, Villa-Lobos, Fernando Mignone, Guerra-Peixe, Cláudio Santoro e John Neschling. Entre os cancionistas brasileiros com contribuições no cinema estão Chico Buarque, Caeta- no Veloso, Tom Jobim, Luís Bonfá e David Tygel. No final do século XX, Francis Hime, Egberto Gismonti, Wagner Tiso, Edu Lobo, Cristóvão Bastos, Luiz Henri- que Xavier, Luiz Avellar, Jaques Morelenbaum, Antô- nio Pinto e José Miguel Wisnik surgem no quadro de compositores de trilhas sonoras brasileiras. Este último
é o compositor da música original de Terra Estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomaz, 1995) e parceiro de Paulo Tatit, que assina a produção musical da película, a ser analisada a seguir.
O mal-estar do estrangeiro
A fotografia em preto e branco de Walter Carvalho dá o tom noir de Terra Estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas, 1995, imagem 1), filme que fala da solidão, desesperança e do sentimento de não pertença dos imigrantes de países em desenvolvimento na Europa, especificamente em Portugal, pontuando o Brasil como margem em relação à nação lusa e Portugal como margem em relação à Europa.
Imagem 1. Cartel du Terra Estrangeira.
Terra Estrangeira, Walter Salles. Brasil. 1950. 110 min.
O eixo narrativo escolhido pelo diretor Walter Salles é a vida de Paco/Francisco Ezaguirre (Fernando Alves Pinto), jovem estudande de classe média que vive com a mãe, Manuela Ezaguirre (Laura Cardoso), num apartamento próximo ao Elevado (“Minhocão”), na capital São Paulo. Paco sonha em ser ator; solitário, anda sempre com um livro de poemas à mão. Manuela só tem ao filho e sonha em, com ele, conhecer San Sebastian, onde viveram seus antepassados – capital da província de Guipúzcoa, localizada a cerca de 8.600


































































































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