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INVESTIGACIÓN UNIVERSITARIA MULTIDISCIPLINARIA - AÑO 10, No10, DICIEMBRE 2011
Facultad de Ciencias Humanas
com a presença do som sincronizado e da música, que, assim como a correria dos personagens na imagem, imprime ritmo e agilidade às cenas.
A relação entre som diegético (o som da cena) e o extradiegético (fora do enquadramento) define situações de contraste: Miguel, namorado de Alex, toca trompete em um bar português; logo após, o solo é substituído por lambada, quando Alex, recém- -chegada ao local, é convidada por um imigrante africano para dançar, despertando ciúmes em Miguel, que conversa com o amigo Pedro (João Lagarto), violi- nista e vendedor de partituras. Aqui, o ritmo alegre e dançante contrasta com o mal estar do casal.
Em outra situação, quando Paco, Ígor e o francês, destinatário da encomenda enviada por intermédio de Paco, estão num restaurante, a apresentação de um fado português, ao mesmo tempo em que sublinha sentimentos despertos pela narrativa – saudade, cansaço, abandono –, contrasta, pelo seu caráter de entretenimento do público do local, com a pressão a que Paco é submetido para entregar o pacote que, na verdade, perdeu.
Digno de nota é o comentário dos personagens sobre a música executada ou simplesmente ouvida dentro do espaço diegético: no primeiro caso, Pedro e Miguel comentam que o solo de trompete apresentado por este último não havia feito tanto sucesso quanto a lambada colocada a seguir: “Da próxima vez eu vou misturar uma bossa nova com rap e meu samba vai fi- car assim, ó: ouve, ouve”, diz Miguel. No segundo caso, diante de uma apresentação de fado no restaurante, os dois franceses comentam: “fado significa destino”, antes da chegada de Paco e Ígor ao local.
Quanto à relação entre as intensidades da música e dos diálogos em simultaneidade, a trilha musical pode gerar, propositadamente, excesso de carga dramática – como quando Paco vai ao antiquário de Ígor e este começa a falar como se recitasse, com veemência, um texto teatral – ou confusão entre sons – como quan- do Paco, imaginando que o angolano Loli roubara a encomenda, entra no apartamento dos africanos, que hostilizam o brasileiro de forma incompreensível, devido à intensidade da música.
Trechos musicais “inaudíveis”, conforme a classificação da música para filmes por Gorbman (1987), também habitam a película, sobretudo na primeira parte, enquanto notícias sobre a implantação do plano econômico do então presidente Fernando Collor são
veiculadas na televisão, pondo fim não somente ao sonho de Manuela, mãe de Paco, de conhecer a terra de seus antepassados, como também, de forma meta- fórica, à própria vida da personagem – momento em que essa trilha musical para de se intensificar para dar lugar ao tema da dor do filho.
A aridez inevitável da metrópole é contemplada pela linguagem musical, o que liga, na trama, São Paulo (melodia ao piano e, depois, no violino) e Lisboa (fado português e violino tocado por Pedro), antes mesmo do encontro dos protagonistas, que compar- tilham sentimentos parecidos, porém separados pelo Atlântico.
A relação música-lugar também se faz presente em outras ocasiões: quando, do avião, Paco vê Lisboa, violão e bandolim unem-se ao piano e às cordas num tema instrumental que lembra o fado; quando a mú- sica africana dançante, ouvida no aparelho de som dos imigrantes angolanos, invade a rua ou a pensão onde moram – mostrando como conseguem suportar, por meio da alegria de suas tradições, o preconceito e o fato de estarem longe de casa –; ou, ainda, no momento em que Paco e Alex cruzam a fronteira portuguesa rumo à Espanha, a nuance “flamenca” que a trilha musical adquire, com o dedilhar de violões.
O violino possui uma função chave na narrativa, sendo o elemento conector central entre música e imagem na obra. Toda a trama se desenrola a partir do momento em que Paco precisa, a pedido de Ígor, entregar uma encomenda – um violino cheio de diamantes – a um cliente do traficante em Lisboa. Solos de violino podem ser ouvidos a partir do momento em que Paco vê a mãe morta, no Brasil. Quando, na cena seguinte, Pedro aparece tocando violino em sua loja de partituras, está selada a relação com Portugal. Ouve-se o mesmo ins- trumento na cena de sexo entre Alex e Paco, solando (revelando) a melodia da canção Vapor Barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1972, interpretada por Gal Costa) – canção-tema do filme, apesar de não ter sido composta para tal finalidade – e fazendo referência ao prazer sentido pelos personagens naquele momento.
A canção no filme
A primeira inserção de canção em Terra Estrangeira ocorre em São Paulo, no bar onde Paco conhece Ígor e conta-lhe sua história. Pense em Mim (Douglas Maio, José Ribeiro e Mário Soares, 1991), sucesso sertanejo nas vozes de Leandro e Leonardo, ouvida no bar (canção diegética), está em segundo plano sonora e


































































































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