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INVESTIGACIÓN UNIVERSITARIA MULTIDISCIPLINARIA - AÑO 10, No 10, DICIEMBRE 2011
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Facultad de Ciencias Humanas
quilômetros de São Paulo, no País Basco espanhol, fronteira entre Espanha e França, rodeada pela Baía da Concha (mar da Biscaia) e conhecida como um ponto gastronômico importante da Europa.
Ambos os sonhos se desmoronam quando Paco não consegue declamar o poema em um teste para ato- res e, paralelamente, sua mãe morre, logo após o anúncio, pela TV, do plano econômico do governo Collor – que confiscava as cadernetas de poupança dos brasileiros – , pela então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso. Ficção e recente história brasileira se encontram, sendo esta última o marco contextual da reviravolta na vida de Paco.
Diante da morte da mãe e do fracasso como ator, sem dinheiro nem perspectiva, Paco, num bar, conhece Ígor (Luis Melo). Traficante internacional de joias, este propõe que o jovem entregue uma encomenda misteriosa – um violino cheio de diamantes – para um “amigo” em Lisboa e, com a comissão, realize o sonho de sua mãe e visite San Sebastian. Paco, já em terras lusas, não encontra o destinatário da encomenda, mas sim a polícia levando embora o corpo de Miguel (Alexandre Borges), músico contrabandista assassina- do após tentar roubar uma encomenda que deveria ter sido entregue a mando de Ígor. O jovem, então, procura por Alex (Fernanda Torres), garçonete brasi- leira num restaurante português que, frente à morte do ex-namorado Miguel, vende seu passaporte para poder sobreviver em Lisboa.
Paco e Alex fogem de Ígor, depois que ela dá a en- comenda sob responsabilidade de Paco para um des- conhecido. Nessa fuga, os dois realizam que não tem ninguém além de si e do outro. Interceptados por Ígor na fronteira de Portugal com a Espanha, Alex perfura a mão dele com um garfo à mesa de um pequeno restaurante, enquanto Paco é baleado pelo compra- dor dos diamantes. Os dois retomam a fuga, Alex no volante com Paco no colo, cantando para que ele não durma, e cruzam a fronteira em alta velocidade.
Tensas cenas de fuga em “câmera na mão” contrastam com a melancolia de enquadramentos que evidenciam a pequenez e impotência de Paco e Alex diante dos “abismos” e “mares” que precisam cruzar em busca de uma vida estável. O navio encalhado na praia sinaliza a grande probabilidade de fracasso. Como consolo, a aparente frieza desiludida de Alex encontra na indignação, desespero e juventude de Paco algo que se pareça com um “lar”.
A música em Terra Estrangeira é utilizada com econo- mia e cautela em benefício da polifonia audiovisual, de modo a se contrapor aos momentos de “silêncio” (som ambiente) e, assim, valorizar, organicamente, sua inserção na trama. Dentro ou fora da diegese, música instrumental, canção e silêncio respondem pela intensificação da melancolia demonstrada na performance geral dos protagonistas, cuja identidade fora perdida; pela tensão e velocidade nas cenas de fuga; pela alegria e despreocupação dos imigrantes angolanos que aparecem como coadjuvantes; ou real- çando a beleza nos raros momentos de afeto. A música também participa efetivamente da trama, entre outras ocorrências, por meio do violino que pode ser visto, ouvido e cuja melodia se funde à canção-tema ao final do filme, como analisaremos aqui.
A música em Terra Estrangeira
Música original
De acordo com Caznok (2003), a música, por si só, já aponta a necessidade de indiferenciação, uma vez que ela é, ao mesmo tempo, melodia (audição), textura (tato) e movimento (visão). Desse modo, quanto maior a indiferenciação de sentidos ao assistir ao filme, maior a fruição. A trilha musical original de José Miguel Wisnik – compositor, arranjador e responsável pela execução de pianos e teclados – revela o drama e a solidão de que trata o filme, ainda nos créditos iniciais. As notas agudas tocadas ao piano; a intensidade do ataque dessas notas; o contraste entre notas agudas e graves, a melodia dissonante e a grande reverberação alcançada pela música – indicando poucos obstáculos enfrentados pelo som para que pudesse ser refletido em um ambiente – anunciam, no início do filme, e pontuam, ao longo dele, a história de Paco e Alex e têm correspondência direta com a estética adotada no plano visual: opção por preto e branco na fotografia, planos gerais estratégicos, fusões de entrada e saída de planos, etc.
Como dissemos, a inserção da música no filme é mar- cada pela economia, opção que valoriza as ocorrências musicais, o silêncio, os diálogos, enfim, a instância so- nora como um todo – o que, para Michel Chion (1993), contribui para o valor agregado pelo som à imagem. O conceito de valor agregado proposto pelo autor refere-se a um valor expressivo e informativo com o qual o som agrega significado à imagem, de modo a dar a impressão de que tal informação já estava contida nela. Sequências de perseguição, suspense e perigo, em Terra Estrangeira, “tornam-se mais reais”

